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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Que diacho! Eu gostava do meu cusco..


Que diacho! Eu gostava do meu cusco.. 
Entendo. Envelheci entendendo. 
Bicho não tem alma, eu sei bem, mas será que vivente tem? 
 Que diacho! Eu gostava do meu cusco. 
Era uma guaipeca amarelo, baixinho, de perna torta, que me seguiu num domingo, de volta de umas carreira. 
 Eu andava abichornado, bebendo mais que o costume, essas coisa de rabicho, de ciúme, vocês me entendem? 
Ele entendeu. 
 Passei o dia bebendo e ele ali no costado me olhando de atravessado, esperando por comida. 
 Nesse tempo era magrinho que aparecia as costela. 
Depois pegou mais estado mas nunca foi de engordá. 
 Quando veio meu guisado, dei quase tudo prá ele. 
Um pouco, por pena dele, e outro, que nesse dia, só bebida eu engolia por causa dos pensamento. 
 Já pela entrada do sol, ainda pensando na moça e nas miséria da vida, toquei de volta prás casa e vi que o cusco magrinho vinha troteando pertinho, com um jeito encabulado Volta prá casa, guaipeca! 
Ralhei e ralhei com ele. 
Parava um pouco, fugia, farejava qualquer coisa, depois voltava prá mim. 
O capataz não gostou, na estância só tinha galgo, mas o guaipeca ficou. 
 Botei-lhe o nome de sorro, as crianças, de brinquinho, mas o nome que pegou foi de guaipeca amarelo. 
 Mas nome não é o que importa. 
Bicho não tem alma, eu sei bem. 
Mas será que vivente tem? Ficou seis anos na estância. 
Lidava com gado e ovelha sempre atento e voluntário. 
Se um boi ganhava no mato, o guaipeca só voltava depois de tirá prá fora. 
 E nunca mordeu ninguém! 
Nem as índia da cozinha que inticava com ele. 
Nem ovelha, nem galinha, nem quero-quero, avestruz. 
Com lagarto, era o primeiro e mesmo pequininho corria mais do que um pardo. 
 E tudo ia tão bem... 
Até que um dia azarado o patrãozinho noivou e trouxe a noiva prá estância. 
 Era no mês de janeiro, os patrão tava na praia, e veio um mundo de gente, tudo em roupa diferente, até colar, home usava, e as moça meio pelada, sem sê na hora do banho, imagino lá no arroio, o retoço da moçada. 
 Mas bueno, sou d'outro tempo, das trança e saia rodada, até aí não tem nada, que a gente respeita os branco, olha e finge que não vê. O pior foi o meu cusco, que não entendeu, por bicho, a distância que separa um guaipeca de peão da cachorrinha mimosa da noiva do meu patrão. 
 Era quase de brinquedo a cachorrinha da moça. 
Baixinha, reboladera, pêlo comprido e tratado, andava só na coleira e tinha medo de tudo, por qualquer coisa acoava. 
 Meu cusco perdeu o entono quando viu a cachorrinha. 
E lhes juro que a bichinha também gostou do meu baio. 
Mas namoro, só de longe que a cusca era mais cuidada que touro de exposição. 
 Mas numa noite de lua, foi mais forte a natureza. 
A cadela tava alçada e o guaipeca atrás dela entrou por uma janela e foi uma gritaria quando encontraram os dois. 
 Achei graça na aventura, até que chegou o mocito, o filho do meu patrão, e disse prá o Vitalício que tinha fama de ruim: Benefecia o guaipeca prá que respeite as família! 
Parecia até uma filha que o cusco tinha abusado. Perdão, lhe disse, o coitado não entende dessas coisa. 
Deixe qu'eu leve prá o posto do fundo, com meu compadre, depois que passá o verão. 
Capa o cusco, Vitalício! E tu, pega os teus pertence e vai buscá o teu cavalo. 
 Me deu uma raiva por dentro de sê assim despachado por um piazito mijado e ainda usando colar.
 Mas prometi aqui prá dentro: mesmo filho do patrão, no meu cusco ninguém toca. 
Pego ele, vou m'embora e acabou-se a função. 
 Que diacho! Eu gostava do meu cusco. 
Bicho não tem alma, eu sei bem. Mas será que vivente tem? Campiei ele no galpão, nos brete, pelas mangueira e nada do desgraçado. 
No fim, já meio cansado, peguei o ruano velho e fui buscá o meu cavalo. 
 Com o tordilho por diante, vinha pensando na vida. Posso entrá numa comparsa, mesmo no fim das esquila. 
Depois ajeito os apero e busco colocação, nem que seja de caseiro, se nã me ajustam de peão. 
E levo o cusco comigo pois foi o único amigo que nunca negou a mão. 
 Nisso, ouvi a gritaria e os ganido do meu cusco que era um grito de susto, de medo, um grito de horror. 
Toquei a espora no ruano mas era tarde demais. 
Tinham feito a judiaria e o pobrezinho sangrava, sangrava de fazê poça e já chorava fraquinho. 
 Peguei o cusco no colo e apertei o coração. 
O sangue tava fugindo, não tinha mais esperança. 
O cusco foi se finando e os meus olho chorando, chorando que nem criança. 
 Que diacho! Eu gostava do meu cusco. Bicho não tem alma, eu sei bem. 
Mas será que vivente tem? Nessa hora desgraçada o tal mocito voltou prá sabê pelo serviço. 
Botei o cusco no chão, passei a mão no facão e dei uns grito com ele, com ele e com o Vitalício! 
 Ele puxô do revólver mas tava perto demais. 
Antes que a bala saísse, cortei ele prá matá. 
Foi assim, bem direitinho. Eu não tô aqui prá menti. 
É verdade qu'eu fugi mas depois me apresentei. 
Me julgaram e condenaram mas o pior que assassino, foi dizerem que o motivo era pouco prá o que fiz... 
 Que diacho! Eu gostava do meu cusco. 
Bicho não tem alma, eu sei bem. Mas será que vivente tem? 

fonte: http://www.vagalume.com.br cantor: Odilon Ramos Compositor: Alcy Cheuiche

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Redescobrir. Composição: Luiz Gonzaga Jr.


Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia

Como um animal que sabe da floresta, perigosa
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia

Pelo simples ato de um mergulho ao desconhecido mundo que é o coração.
Alcançar aquele universo que sempre se quis e que se pôs tão longe na imaginação.

Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da própria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia

Não tenha medo, meu menino povo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O único animal


O homem é o único animal que ri dos outros. O homem
é o único animal que passa por outro e finge que não
vê.
É o único que fala mais do que papagaio.
É o único que gosta de escargots (fora, claro, o
escargot).
É o único que acha que Deus é parecido com ele.
E é o único...
...que se veste
...que veste os outros
...que despe os outros
...que faz o que gosta escondido
...que muda de cor quando se envergonha
...que se senta e cruza as pernas
...que sabe que vai morrer
...que pensa que é eterno
...que não tem uma linguagem comum a toda espécie
...que se tosa voluntariamente
...que lucra com os ovos dos outros
...que pensa que é anfíbio e morre afogado
...que tem bichos
...que joga no bicho
...que aposta nos outros
...que compra antenas
...que se compara com os outros
O homem não é o único animal que alimenta e cuida
das suas crias, mas é o único que depois usa isso
para fazer chantagem emocional.
Não é o único que mata, mas é o único que vende a
pele.
Não é o único que mata, mas é o único que manda
matar.
E não é o único...
que voa, mas é o único que paga para isso
que constrói casa, mas é o único que precisa de
fechadura
que foge dos outros, mas é o único que chama isso
de retirada estratégia.
que trai, polui e aterroriza, mas é o único que
se justifica
que engole sapo, mas é o único que não faz isso
pelo valor nutritivo
que faz sexo, mas é o único que faz um boneco
inflamável da fêmea
que faz sexo, mas é o único que precisa de manual
de instrução.

fonte:http://www.casadobruxo.com.br

quarta-feira, 27 de março de 2013

EU ENVELHECI?


Um dia desses uma jovem me perguntou como eu me sentia sobre ser velha. Levei um susto, porque eu não me vejo como uma velha. Ao notar minha reação, a garota ficou embaraçada, mas eu expliquei que era uma pergunta interessante, que pensaria a respeito e depois voltaria a falar com ela. Pensei e concluí: a velhice é um presente. Eu sou agora, provavelmente pela primeira vez na vida, a pessoa que sempre quis ser.
Oh, não meu corpo! Fico incrédula muitas vezes ao me examinar, ver as rugas, a flacidez da pele, os pneus rodeando o meu abdome, através das grossas lentes dos meus óculos, o traseiro rotundo e os seios já caídos. E constantemente examino essa pessoa velha que vive em meu espelho (e que se parece demais com minha mãe), mas não sofro muito com isso.
Não trocaria meus amigos surpreendentes, minha vida maravilhosa, e o carinho de minha família por menos cabelo branco , uma barriga mais lisa ou um bumbum mais durinho.
Enquanto fui envelhecendo, tornei-me mais condescendente comigo mesma, menos crítica das minhas atitudes. Tornei-me amiga de mim mesma. Não fico me censurando se quero comer um bolinho-de-chuva a mais, ou se tenho preguiça de arrumar minha cama, ou se compro um anãozinho de cimento que não necessito, mas que ficou tão lindo no meu jardim. Conquistei o direito de matar minhas vontades, de ser bagunceira, de ser extravagante.
Vi muitos amigos queridos deixarem este mundo cedo demais, antes de compreenderem a grande liberdade que vem com o envelhecimento. Quem vai me censurar se resolvo ficar lendo ou jogar paciência no computador até às 4 da manhã e depois só acordar ao meio-dia?
Dançarei ao som daqueles sucessos maravilhosos das décadas de 50, 60, 70 e se, de repente, chorar lembrando de alguma paixão daquela época, posso chorar mesmo!
Andarei pela praia em um maiô excessivamente esticado sobre um corpo decadente, e mergulharei nas ondas e darei pulinhos se quiser, apesar dos olhares penalizados dos outros. Eles, também, se conseguirem, envelhecerão.
Sei que ando esquecendo muita coisa, o que é bom para se poder perdoar. Mas, pensando bem, há muitos fatos na vida que merecem ser esquecidos. E das coisas importantes, eu me recordo freqüentemente. Certo, ao longo dos anos meu coração sofreu muito.
Como não sofrer se você perde um grande amor, ou quando uma criança sofre, ou quando um animal de estimação é atropelado por um carro? Mas corações partidos são os que nos dão a força, a compreensão e nos ensinam a compaixão. Um coração que nunca sofreu é imaculado e estéril e nunca conhecerá a alegria de ser forte, apesar de imperfeito.
Sou abençoada por ter vivido o suficiente para ver meu cabelo embranquecer e ainda querer tingi-los a meu bel prazer, e por ter os risos da juventude e da maturidade gravados para sempre em sulcos profundos em meu rosto. Muitos nunca riram, muitos morreram antes que seus cabelos pudessem ficar prateados.
Conforme envelhecemos, fica mais fácil ser positivo. E ligar menos para o que os outros pensam. Eu não me questiono mais. Conquistei o direito de estar errada e não ter que dar explicações. Assim, respondendo à pergunta daquela jovem graciosa, posso afirmar: "Eu gosto de ser velha". Libertei-me!
Gosto da pessoa que me tornei. Não vou viver para sempre, mas enquanto estiver por aqui, não desperdiçarei meu tempo lamentando o que poderia ter sido, ou me preocupando com o que virá. E comerei sobremesa todos os dias e repetirei, se assim me aprouver...
E penso que nunca me sentirei só. Sou receptiva e carinhosa, e se amizades antigas teimam em partir antes de mim, outras novas, assim como você, vêm a mim buscar o que terei sempre para dar enquanto viver: EXPERIÊNCIA E MUITO AMOR!

fonte: internet
autor: desconhecido

domingo, 24 de março de 2013

Poesia: Minha Linda Santa Maria. Publicada no Diário de Santa Maria de 15.03.2013


Minha Linda Santa Maria, por: FSant'Anna


Uma fumaça negra, tomou conta de nosso peito, difícil de dissipar
Os sorrisos e conversas alegres, foram trocados por sussurros e lamentos
Desde aquela madrugada o choro não cessa, alcançando os quatro cantos da cidade
Mais de duzentas vidas inocentes ceifadas de modo banal
A culpa será apurada
A justiça será feita
Mesmo assim a sensação de impotência nos castiga os ossos
Hoje todo Santa-mariense, caminha com o passo pesado, com esse enorme carma sobre os ombros
Um sentimento de perda, de sei lá o que
Talvez por sabermos lá no fundo de nossa parcela de culpa
Culpa dos irresponsáveis, dos omissos, dos incompetentes
Quantas tragédias teremos de passar, para nos tornarmos um povo sério?
A farra acabou, a balada já não tem graça
Que agora minha linda Santa Maria, esse coração amado de nosso quinhão gaúcho, sirva de lição
Todos nós somos um pouco responsáveis, queiramos ou não
Que paremos de brincar de fiscalizar, e de cumprir regras
É o finge que cobra, e o finge que obedece
Que paremos de fingir, e de contar cadáveres
Para que um dia aquele sorriso juvenil, volte a estampar nossa terra amada

terça-feira, 19 de março de 2013

Carpinejar: "morri em Santa Maria"

O escritor gaúcho Fabrício Carpinejar divulgou um texto falando da tragédia em Santa Maria, intitulado "A maior tragédia de nossas vidas":
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013. As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência. Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram. Morri sufocado de tanta morte; como acordar de novo? O prédio não aterrisou da manhã, como um avião desgovernado na pista. A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro. Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
As palavras perderam o sentido.

Fabrício Carpinejar

Talento Sujo

Já fui taxado como um talento bruto, um talento sujo, um talento burro.
Para o primeiro busquei a razão, “A Critica da Razão Pura”, a filosofia e todos os seus Kants, Platões, Socrates, Tales, Senecas e me tornei critico. “Humano Demasiado Humano”, descobrindo que toda critica até mesmo a pura, nada mais é que Dura.
Para o segundo busquei a salvação. Ser casto. Os santos, as crenças; ser de fé. Purguei, confessei, dancei Candomblé, quis ser Católico. Deixei de ser laico, virei arcaico e descobri ser Caótico.
Para o terceiro li e reli, fadiguei a vista, gastei a vida. Rondéis, acrósticos, artigos, cartas e carretéis; cirandas e contos; vinho tinto, livros e cronicas. Casimiros de Abreu, Machados de Assis, em minha cabeça uma bomba atômica.
Por fim já não era bruto, sujo e burro, já não era um talento.
Autor: FSantanna

A arte de Ser Feliz, de Cecília Meirelles

Houve um tempo em que minha janela se abria
Sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
E o jardim parecia morto.
Mas, todas as manhãs, vinha um pobre com um balde,
E, em silencio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caiam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Ás vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro as nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com os pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me aprecem personagens de Lope de Veiga.
As vezes, um galo canta.
As vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
Que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
Outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
Finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meirelles